Quarta-Feira, 03 de Junho de 2015, 00h:31

Tamanho do texto A - A+

Sinjão, terra e pão

sinjão

 Faleceu nesta terça-feira, aos 99 bem edificados anos de vida, o desbravador João Augusto Capilé Junior, o Sinjão

 

Por Mário Marques de Almeida

 

Difícil falar de morte, sobretudo quando se trata de alguém que, ao longo de seus 99 anos de existência, foi a celebração da vida em pessoa. Naquilo que ela tem de bom. Falo de Sinjão, simplesmente Sinjão, que na pia batismal e no registro cartorário recebeu o nome de João Augusto Capilé Júnior. 

 

Melhor dito, ele não morreu, disse ”adeus e foi s’imbora”, leve e livre, assim como na letra do samba famoso, por volta das 10 horas desta terça-feira. 

 

Foi de tudo um pouco e muito em tudo que fez, onde sempre colocou paixão de quem tocava violão com maestria, cantava, compunha. De berço, trouxe dons artísticos típicos dos Capilé nascidos já vocacionados para a música e a poesia, as artes cênicas e plástica, prova disso é que entre seus muitos rebentos está aí a afinadíssima cantora Vera Capilé. 

 

Não sei exatamente quantos filhos, filhas, netos, bisnetos e tataranetos ele deixou. Eles que me perdoem por não citá-los um a um, até porque a prole descendente de Sinjão deve beirar umas sessenta pessoas. 

 

Porém, por laços de amizade e maior conhecimento, cito dona Íris e seu filho Gustavo de Oliveira, diretores do Diário, juntamente com Adelino Praeiro. Nas pessoas deles externo minhas condolências e de minha família, tanto pelo lado dos Almeida como dos Marques de Matos, meus troncos, aos demais membros do clã Capilé, que se estende de Cuiabá às paragens da região de Dourados, no hoje Mato Grosso do Sul, terra natal de Sinjão e também deste jornalista, que ainda adolescente aprendeu a admirá-lo por influência de meus pais, tios e avós que também eram seus admiradores e amigos. 

 

Jornalista e político, Sinjão participou da fundação do jornal O Progresso, atualmente um impresso diário de maior influência e circulação na chamada Grande Dourados, que tem nesta cidade o pólo de mais de 20 outras, algumas das quais nasceram sob a influência direta e graças ao espírito empreendedor daquele que a uma horas dessas está nos “Páramos da Eternidade”, como escreveria o poeta e jornalista cuiabano Ronaldo de Castro, se vivo também estivesse. 

 

Como prefeito de Dourados, ainda na década de 40, Sinjão criou o primeiro assentamento rural do país de âmbito de uma municipalidade, isto em uma época em que a expressão Reforma Agrária sequer existia. 

 

Comandou pessoalmente a demarcação e entrega dos lotes, trabalho feito com planejamento e audácia, possibilitando que inicialmente cerca de 1.000 famílias passassem a ter um pedaço de chão e criar seu povo. 

 

Na esteira desse assentamento, surgiram cidades como Itaporã e outras comunidades urbanas, atualmente também emancipadas politicamente e transformadas em municípios e que contribuíram para transformar Dourados na segunda maior e mais importante cidade do Mato Grosso do Sul. 

 

Plantou a boa semente, deu terras e propiciou o pão! 

 

Adeus, Sinjão! 

 

* MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é jornalista e diretor do site Página Única