Quarta-Feira, 28 de Março de 2018, 11h:31

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Bancos ignoram Selic


GILBERTO MENEZES CÔRTES / JB

O Banco Central divulgou ontem os dados do mercado de crédito e juros do Brasil em fevereiro. E a surpresa desagradável foi o aumento de 5,9 pontos percentuais no juro médio total cobrado no rotativo do cartão de crédito, em relação a janeiro. A taxa saltou de 328,0% ao ano em janeiro para 333,9% em fevereiro. Desde abril de 2017, o rotativo tem novas regras (amortização mínima de 15% da fatura e migração do saldo devedor para modalidades de crédito com juros mais modestos), com as quais o BC acreditava que o juro médio cairia.

Na contramão da queda de 7% nos juros básicos (a taxa Selic desceu dos 7,00% ao ano em dezembro para 6,50% ao ano, na semana passada), os juros  médios do rotativo apurados pelo BC subiram dos 241% ao ano em dezembro para 310,6% em fevereiro. Ou seja, quem fez compras parceladas no Natal confiando na queda dos juros bancários, acompanhando a taxa Selic, foi atropelado por alta de 28,9% no rotativo do cartão de crédito.
   
O juro do rotativo é a taxa mais elevada desse segmento e também a maior entre todas as avaliadas pelo BC. Já a taxa de juros da modalidade rotativo não regular passou de 387,4% para 397,5% ao ano. O rotativo não regular inclui as operações nas quais o pagamento mínimo da fatura não foi realizado. Na compra parcelada no cartão, o juro passou de 167,8% para 174,3% ao ano. Considerando o juro total do cartão de crédito (incluindo rotativo e o parcelado), a taxa passou de 68,6% para 74,7% de janeiro para fevereiro. Uma alta de 6,1 pontos percenis.

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro ficou em 41,1% em janeiro, contra 41% em dezembro. Descontadas as dívidas imobiliárias, o endividamento passou de 22,8% para 22,9% no período. O comprometimento da renda das famílias na casa própria caiu de 20% em janeiro para 19,9%. O estoque de crédito direcionado à habitação para pessoas físicas cresceu 0,3% em fevereiro somando R$ 567,487 bilhões. Em 12 meses, o crédito para habitação no segmento pessoa física subiu 5,1%. Já o estoque de operações de crédito livre para compra de veículos por pessoa física teve ligeira queda de 0,1% em fevereiro ante janeiro, para R$ 151,425 bilhões. Em 12 meses, houve expansão de 5,4% nessa carteira.

Projeções para o crédito

O chefe do departamento de estatística do Banco Central, Fernando Rocha, refez as projeções do BC para a expansão do mercado de crédito em 2018, passando de 3,0% para 3,5%.  Essa expansão está em linha com as projeções de aumento do PIB, de 3% para este ano (previsto pelo Ipea) e de até 3,7% em 2019, conforme previsões do Itaú (Bradesco e Ipea esperam um PIB 3% maior em 2019. Ele justificou a revisão: “O crédito com recursos livres tem sido mais dinâmico nos últimos meses, por isso a projeção de alta no crédito livre passou de 4,0% para 6,0%, também devido à recuperação da atividade e à política monetária”, afirmou. (com Estadão Conteúdo)

Quando os juros desafiam a lógica

Deve ser difícil ao chefe do Departamento de Estatísticas do BC explicar por que, embora os juros básicos tenham caído mais de 50% desde novembro de 2016 (a Selic baixou de 14,25 ao ano% para 6,50% em março), acumulando queda de 54,38%, no mesmo período os juros médios do sistema financeiro caíram a apenas 23,89%.

A situação é tão surreal que os juros médios voltaram a subir desde os 55,1% de dezembro. Só mesmo recorrendo ao genial artista holandês Maurits Cornelis Escher, que em seus desenhos nos transmitia a ilusão de que a água subia as escadas. Na realidade bancária brasileira, juros de todas as modalidades sobem quando a taxa básica e a inflação caem. Por isso a taxa de inadimplência geral  para pessoas físicas baixou só de 6%, em dezembro de 2016, para 5,1%, em fevereiro. Os juros oficiais caem mais de 50%, desde 2016; os juros médios baixam 20,30% e a inadimplência só 15%.

No oligopólio bancário, os juros do rotativo do cartão de crédito regular são puro Escher. De dezembro de 2016 a fevereiro caíram 14,8%. Desde as novas regras, em abril (284,9% ao ano) foi uma montanha russa, com escalada de 28,8% desde dos 241,6 de dezembro de 2017 até os 310,6% de fevereiro de 2018.Novas regras não seguram decolagem dos juros de cartão rotativo, que chegam a 333,9% ao ano