Domingo, 26 de Novembro de 2017, 08h:25

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'Justiça se transformou em espetáculo', diz ex-ministro do STF

Redaçao

"Nem vejo TV Justiça porque não quero nem lembrar que trabalhei lá." A declaração é do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Eros Grau, que afirma estar de "pleno acordo" com a conclusão da tese de doutorado do economista Felipe de Mendonça Lopes, da Fundação Getulio Vargas (FGV), cuja pesquisa mostra que os componentes do órgão passaram a escrever votos maiores desde que as sessões começaram a ser transmitidas pela TV.

Eros lamentou que "a Justiça virou um espetáculo" e afirmou que o motivo é, de fato, a transmissão das sessões ao vivo. O ex-ministro entrou na Corte em 2004, dois anos depois da criação da TV Justiça, e saiu em 2010. Segundo contou, à sua época, era "discreto".

"A Justiça se transformou em um espetáculo. É diariamente", afirmou. Eros lembrou de um episódio que considera "emblemático" dessa espetacularização. Um dia de sessão no plenário, algum magistrado falava sem parar, quando foi interrompido pelo então ministro Nelson Jobim: "Já entendemos o que o senhor quer dizer. Está claro". Em resposta, o tal ministro disse: "Não estou falando para os senhores". Estava claro, para Eros, que o colega falava para os telespectadores.

Questionado se a TV Justiça não traz transparência à população do que se passa na Corte, Eros é enfático: "Os tribunais não têm de ser transparentes, têm de aplicar a lei". Ele contou ainda que nas cortes dos Estados Unidos e da França, não há acórdãos desse ou daquele ministro.

Quando se publica o acórdão, é apenas dito que, por maioria, tal voto foi escolhido - diferentemente daqui, em que cada ministro apresenta seu voto separadamente. Enquanto há quem diga que a exposição dos ministros teria se intensificado com o julgamento de casos emblemáticos, como do mensalão e da Lava Jato, Eros descartou essa possibilidade.

"Em todo lugar do mundo, se julgam coisas importantes. Só aqui virou esse espetáculo", disse.